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Elemento Surpresa

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José Eraldo de Lima

De um simples competidor ao grande
destaque em uma das maratonas mais difíceis do Brasil

 

O conteúdo desta matéria parece história de ficção, tipo um roteiro de filme Hollywoodiano. Rico em detalhes, muita emoção e um final completamente surpreendente.

O personagem principal da história é José Eraldo de Lima, 36, um nome bem conhecido em Maringá, diretor do Clube Ingá de Corrida de Rua com uma extensa carreira no atletismo. Eraldo iniciou suas atividades em 1996 ainda em Pernambuco, sua terra natal e 21 anos depois entra para a história em uma das mais difíceis maratonas do mundo: A Mizuno Uphill Marathon!!!

A prova acontece na Serra do Rio do Rastro em Santa Catarina, um cenário encantador e um percurso extremamente desafiador, com subidas intermináveis e 286 curvas durante o trajeto. Uma maratona onde o desafio se inicia já em conseguir fazer a inscrição, que é limitadíssima pela quantidade de atletas interessados e é lá que a nossa história começa.

Após alguns convites de amigos que participaram de edições anteriores, Eraldo se sentiu motivado a participar em 2017. A odisseia se iniciou na pré-inscrição pelo site, a vaga não saiu pelo sorteio e a posição na lista de espera era desfavorável. As esperanças estavam se esgotando quando surgiu a última oportunidade, que seria através de um custoso pacote de viagem onde nele estaria incluso a inscrição para maratona.

José Eraldo se agarrou a esta última esperança, com apenas 40 dias antecedendo a prova, contou com o apoio de uma ação entre amigos, liderada pelo corredor Cesar Moro e viabilizou os custos da viagem para que Eraldo conseguisse enfim encarar a Serra do Rio do Rastro.

Inscrição feita, contando os pouquíssimos dias para a viagem, o foco era preparação para esta maratona, que por ter uma topografia única, a estratégia foi focar no fortalecimento, já que as intermináveis subidas, dificilmente seria possível simular algo parecido nas proximidades de Maringá.

Chegada a hora, saíram de Maringá, José Eraldo e mais 13 maratonistas rumo à Santa Catarina. Como estreante nesta prova e incerto do que iria encontrar pela frente, Eraldo se sentia preparado, mas sem a obrigação de trazer grandes resultados. A estratégia era manter-se perto dos favoritos e encarar o desconhecido.

“Como era algo diferente para mim a minha estratégia era de acompanhar o pelotão e ver no que ia dar, dada a largada pontualmente às 7h. Minha estratégia só foi possível até o 5º quilômetro, do 5 ao 9,5km comecei a sofrer muito e os atletas foram embora abrindo uma grande vantagem sobre mim.” Comenda o atleta.

Sentindo que seria uma prova extremamente difícil, Eraldo manteve o foco, sempre pensando nos treinos, no apoio do Clube Ingá, familiares e amigos de corrida, na marca de 10km, a subida deu uma trégua e ele conseguiu recuperar posições e encostar no primeiro colocado.

Percebendo a presença do atleta maringaense, o então primeiro colocado imprimiu um ritmo muito forte e abriu uma boa vantagem, saindo completamente do campo de visão de Eraldo, aproximadamente cinco a sete minutos de diferença.

O clima nas edições anteriores da Mizuno Uphill Marathon sempre foi ameno, porém nesta edição o calor insistente também se tornou um desafio a ser superado. Passada a passada, no início do pé da serra, no quilômetro 24, as subidas começavam a impor respeito e o foco do corredor era manter-se na segunda posição, intercalando corrida com caminhada, as forças foram se esgotando e um psicológico forte foi crucial neste momento: “Entreguei nas mãos de Deus e disse que seja feita a sua vontade, porque eu sozinho já não dou conta, só não queria ser ultrapassado. Corri muito tempo sozinho, somente eu, meu cansaço e a serra, foi um momento muito difícil, só me lembrava das pessoas que me incentivaram, do meu filho que me acompanhou nos meus treinos de bicicleta, pensava na minha família, conversava com Deus e me apegava à boas lembranças.” Relembra.

Subida após subida, curva após curva, no quilômetro 36, surge no campo de visão o primeiro colocado e o carro madrinha acompanhando o mesmo. O primeiro colocado estava caminhando, bem devagar, e Eraldo ainda conseguia trotar. “Aquilo me motivou e renovou todas as minhas forças, foi quando senti uma emoção muito grande e passei a acreditar que dava para vencer. Senti que Deus tinha me ouvido e estava me dando a chance de ser o campeão, bastava eu resistir e aguantar o sofrimento, foi o que eu fiz, perseverei e imprimi um ritmo de trote moderado, por volta do Km 38 o ultrapassei, ele nem reagiu e me incentivou: Vai lá Eraldo!

Pela primeira vez, faltando poucos quilômetros comecei a liderar a prova, ao se aproximar de Bom Jardim da Serra local da Chegada a emoção começava a tomar conta, é uma prova muito dura, até mesmo aqueles que são acostumados sofrer em competições sofre muito! Por conta dos degraus da serra (as curvas fechadas) olhei para baixo e vi que o segundo colocado já não me alcançava mais. Na parte final da prova onde a maioria sofre muito, eu corria tão feliz e emocionado que não me recordo das últimas subidas, o sofrimento foi minimizado pela alegria que me contagiava.

Faltando 1km as pessoas que estavam assistindo começaram a me informar que daria recorde, nos metros finais da prova comecei a comemorar e cheguei tomado de emoção. O narrador anunciava meu nome como campeão e como recordista. Jamais nos meus melhores sonhos pensei que pudesse ser do jeito que foi, me preparei para fazer uma prova e tentar subir ao pódio, mas ser campeão com direito a recorde, somente Deus para preparar essa benção.

Daí em diante foi só comemorações e emoção, liguei para minha esposa o mais rápido possível e tudo isso se tornou ainda mais emocionante ao reencontrar no local da chegada o meu amigo Cesar Moro, que havia apresentando à Uphill, o mesmo que viabilizou os custos, o mesmo que tornou minha viagem possível. Foi emocionante, ele vinha em minha direção com olhos cheios de lágrima, foi um abraço diferente de tudo que já vivi, foi mágico, inesquecível, chorávamos feito criança, graças a Deus e a ele tudo valeu a pena. Não posso deixar de mencionar a emoção e a alegria que foi dividir essa vitória com tantas pessoas que torceram por mim.” Finaliza Eraldo.

Quando perguntando os pontos positivos que o levou a alcançar o recorde da prova, Eraldo foi enfático: Fui feliz na escolha da preparação, em focar no fortalecimento e como era estreante em nenhum momento fui visto como um favorito, o que tirou um peso enorme das minhas costas, estava muito bem fisicamente e principalmente psicologicamente. Consegui utilizar as energias nas horas certas e manter o controle sobre a ansiedade e a pressão psicológica, deu tudo certo!

Feliz da vida, Eraldo volta para os treinos frente ao Clube Ingá, com vaga garantida como convidado de honra para a Mizuno Uphill Marathon 2018, e agora não será mais o elemento surpresa, que assustou os oponentes e sim o homem a ser alcançado…

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